sábado, fevereiro 04, 2006

A ressureição da música.


Quem gostava de rock já sentia a discrepância entre a produção nacional, da Jovem Guarda, e a internacional, lá pelos idos dos anos 60, 70. Na linha de frente, Beatles com Sgt Pepper's, Stones com Their satanic majesties request, o pirado do Frank Zappa com Freak out, Eric Burdon and the Animals com The Twain Shall Meet, Beach Boys com Pet Sounds e etcs e tais. E aqui umas musiquinhas chinfrins de Erasmos e Robertos e Renatos. Onde estava o salto qualitativo do rock brasileiro? Sérgio e Arnaldo Dias Baptista e Rita Lee Jones jogaram a corda pra gente se salvar.

Os Mutantes foram a ala rock do tropicalismo, o movimento que salvou a música brasileira da chatice da bossa nova. Como tropicalistas, eles privilegiavam a mistura, criando pela primeira vez um rock à brasileira. Iluminados por Caetano Veloso, Gilberto Gil, o maestro Rogério Duprat e o próprio talento e inteligência, produziram sete discos irretocáveis que chegam finalmente às lojas em CDs remasterizados com um som claro e poderoso como eles merecem. Os discos são Os Mutantes (1968), Mutantes (1969), A divina comédia ou Ando meio desligado (1970), Jardim elétrico (1971), Mutantes e seus cometas no país do baurets(1972) e Rita Lee (1972).

Este último levou o nome de Rita porque, por contrato, eles não podiam lançar dois discos no mesmo ano.Nenhum destes discos soa datado e são inspiradores ainda hoje. E muita gente nova se amarra neles, apaixonando-se pela qualidade e pela verdade do trabalho. Não à toa, gente como David Byrne, Beck, Sean Lennon e o falecido Kurt Cobain confessaram admiração pelo grupo. Cada faixa abria um admirável mundo novo sonoro, a levada quebrada de Panis et circenses, arranjo de sopros louco, a música acabava como se o toca discos tivesse pifado, a ginga de Minha menina, os batuques de Adeus Maria Fulô e Bat Macumba.

O segundo disco era totalmente psicodélico, tinha um Dom Quixote louco que acabava no programa do Chacrinha, um sombrio Dia 36 com voz distorcida, a maravilhosa Fuga nº II (Hoje eu vou fugir de casa vou levar a mala...), cantada por Rita Lee como se ela fosse a mulher a que Paul McCartney se referia em She's leaving home (eles se inspiravam muito em Beatles), o cantor gago em Mágica, a Jovem Guarda subvertida em Banho de lua, tudo desembocando em Caminhante noturno, apresentada num festival onde deu um curto circuito nos neurônios da platéia.

O terceiro disco trazia a faixa que até hoje toca em rádio, Ando meio desligado, mas a que eu mais me amarrava era o blues Meu refrigerador não funciona, com Rita Lee começando em inglês num tema comum de blues, de solidão e amor abandonado até virar de repente para o refrigerador enguiçado. Uma cama de órgão maravilhosa de Arnaldo, uma batera ixperta de Ronaldo Leme. Tinha o crássico Chão de estrelas avacalhado com defeitos especiais hilários, uma Haleluia séria com órgão de igreja, a deliciosa jovemguardista Hey boy, a dark Ave Lúcifer, a anárquica Quem tem medo de brincar de amor. Uma festa.Quem quiser saber mais de Mutantes recomendo o livro A divina comédia dos Mutantes, de Carlos Calado, da editora 34. E a capa do Segundo Caderno de hoje é uma entrevista com Sérgio Dias. Falo mais depois.

fonte: o globo.

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